Recomeçamos com as mesmas questões levantadas por Anne Cauquelin sobre as teorias da arte: Tratam-se de teorias no sentido geralmente atribuído ao termo, ou seja, de teorias científicas? A arte não é incompatível com um tratamento científico? Não é melhor ignorar essas teorias?
Reiterando a Obsessão pela teoria da arte desde Platão retificada pelo neoplatônicos que conduzem a arte a via acesso ao reino das idéias.
"A arte abre a visão do todo. A beleza é chave da compreensão". Com a reafirmação do Neoplatonismo o artista se volta para a idéia do Belo, que nada mais é do que manifestação do esplendor do divino que o artista deveria reproduzir por meio da mímese (GROULIER).“De fato, foi negado um privilégio ao artísta: a faculdade original de criar, uma vez que esta pertence exclusivamente a Deus” (GROULIER, p. 10).
Ou seja, a imaginação era "regulada".
Com Flusser vimos que a imaginação é anterior à fala e à escrita. Por outro lado, o controle do imaginário teve sempre um caráter ideológico indissociável do duo poder/saber . Sendo que antes da proliferação midiática das imagens, a imaginação era sempre ‘a louca da casa'. Servem de base a este 'discurso' O argumento negativo ou cético que coloca em dúvida as percepções dos sentidos ou o conhecimento que podemos ter das coisas. Argumento epistemológico já apresentado por Platão, Montaigne, entre outros. Entretanto, ao ser apresentado por Descartes o argumento ganha uma nova dimensão, uma face 'nova' é colocada pelo filósofo: "a sua capacidade de questionar a existência do mundo exterior. (Azizi)"
No século XVI, a loucura possuía um estatuto diferente, em relação ao século XVII. Um exemplo, é a filosofia de Montaigne, onde o ser louco e o não ser louco não era tido como uma certeza.
Não havia a certeza sólida da loucura e da desrazão dos homens, todos poderiam ser e não se ao mesmo tempo, loucos e sensatos. Não existe cisão definitiva. “Entre todas as outras formas de ilusão, a loucura traça um dos caminhos da dúvida dos mais freqüentados pelo século XVI. Nunca se tem certeza de não estar sonhando, nunca existe uma certeza de não ser louco (Montaigne apud Azizi)”.
"Em Descartes, já no século XVII, essa cisão acontece. “A loucura implica a si própria”, e se exclui da razão. Loucura e razão se negam, pois, se sou louco, não penso e nem existo, e se penso, existo e não sou louco. A loucura não diz respeito à razão, (não mais) e se exclui do caminho da dúvida, que leva ao conhecimento. Mais uma vez, se duvido, não sou louco.
Se com Montaigne, fiar-se unicamente na razão como forma de descobrir a verdade era insensatez, com Descartes ocorre o oposto. É necessário guiar nossos conhecimentos unicamente através do crivo da razão, do pensamento, que determina quem eu sou e, em última instância, se sou realmente. Com Descartes, então, há uma reviravolta, há uma fronteira explícita onde os racionais e os desarrazoados não possuem contatos, são antagônicos e não fazem parte nem de um e nem de outro simultaneamente, estão fadados a distanciarem-se para nunca mais se encontrar.A condição de possibilidade de um discurso sobre a loucura, portanto, está dada, para na modernidade (metade do séc. XVIII até hoje, para Foucault), e também para a concepção de loucura como doença mental.(Azizi)"
No caminho da dúvida, Descartes, no interior de seu método, desabilitará a confiança nos sentidos como forma de se adquirir um conhecimento verdadeiro e sólido: “Tudo o que recebi, até presentemente, como mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos : ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou alguma vez (Azizi)”.
Descartes parte da dúvida chamada metódica, porque ela é proposta como uma via para se chegar à certeza. Descartes argumenta que tais idéias em geral são incertas e instáveis, sujeitas à imperfeição dos sentidos. Algumas, porém, se apresentam ao espírito com nitidez e estabilidade, e ocorrem a todas as pessoas da mesma maneira, independentes das experiências dos sentidos, e isto significa que residem na mente de todas as pessoas e são inatas.Descartes foi levado a verificar que "o costume e o exemplo nos persuadem mais do que um conhecimento certo". Método significa, etimologicamente, caminho. Seguir um método corresponde, pois, a caminhar em direção determinada, quer dizer, com a consciência do fim a que se quer chegar.
As preocupações de Descartes engendraram um método que, incluindo as vantagens da lógica, da geometria e da álgebra,evitasse, ao mesmo tempo, os seus inconvenientes. Formula, então, as famosas quatro regras fundamentais, que deverão desdobrar-se e multiplicar-se nas Regras para a direção do Engenho.
Primeira regra: evitar a prevenção e a precipitação,só aceitando como verdadeiras as coisas conhecidas de modo evidente como tais enão admitir no juízo senão o que se apresentasse clara e distintamente,excluindo qualquer dúvida.
Segunda: dividir cada dificuldade em tantas parcelas quanto seja possível e quantas sejam necessárias para resolvê-las.
Terceira:Conduzir em ordem os pensamentos, começando pelos mais simples e mais fáceis de conhecer, a fim de ascender, pouco a pouco, por degraus, até o conhecimento do smais compostos, supondo uma ordem mesmo entre aqueles que não precedem naturalmente uns aos outros.
Quarta: fazer sempre inventários tão completos e revisões tão gerais que se fique certo de nada ter omitido.
Aqui Descartes constitui o preceito metodológico básico – é que só se considere verdadeiro o que for evidente, ou seja, o que for intuível com clareza e precisão, e,conseqüentemente, adequado à pronta aplicação do preceito da evidência.
Na primeira regra, está enunciado o que, para Descartes, é o critério da verdade, a clareza e a distinção das idéias. Essa expressão é repetida ao longo de toda obra de Descartes, como uma das teses fundamentais de sua teoria do conhecimento. A razão cartesiana é a matemática que, no plano do pensamento, e sem sair do pensamento, extrai, ou deduz, as idéias umas das outras, com a certeza de que, sendo essas idéias claras e distintas e achando-se dispostas em ordem contínua e ininterrupta, devem necessariamente corresponder à ordem em que se acham dispostas as próprias coisas.ordem contínua e ininterrupta, devem necessariamente corresponder à ordem em que se acham dispostas as próprias coisas.
GROULIER, Jean-François. Da imitação à expressão In. A pintura. Vol. 5. Da imitação a expressão. Editora 35, 2004
Diego AZIZI, Diego. O elogio do sofrimento. http://projetophronesis.wordpress.com/category/filosofia-moderna/montaigne-filosofia-moderna/
Material/ conteúdo de disciplina dos Programas de Pós Graduação em Artes e de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo 2011/ temas do pós estruturalismo/ arte/ arquitetura
Mark Tansey Monte Sainte Victoire
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
sábado, 10 de setembro de 2011
“Texto/Imagem enquanto dinâmica do Ocidente”
Este é um resumo com alguns poucos comentários do texto de Vilém Flusser “Texto/Imagem enquanto dinâmica do Ocidente”
“Texto/Imagem enquanto dinâmica do Ocidente” consiste na contradição existente entre o gesto que produz imagens e o gesto que produz textos. “O gesto rebate sobre a interioridade a transforma”. O gesto de imaginar (de fazer imagens) exprime imaginação – a produção de imagens fortalece a imaginação. O gesto de escrever textos exprime conceituação, quanto mais se escreve tanto mais se desenvolve a capacidade conceitual. Vilém Flusser conjetura que o inverso também ocorre se há redução da produção de imagens a imaginação diminui, a capacidade conceitual enfraquece com a escassez da produção de textos.
Vilém Flusser propôs quatro eventos cruciais na história ocidental, que permitem captar a “fenomenologia do espírito ocidental”. Primeiramente, com a imagem se articula a imaginação, com os primeiros textos se engendra a conceituação, com os primeiros impressos a conceituação começa a dominar a imaginação e com as primeiras fotografias advém uma imaginação nova, com conseqüências ainda imprevistas. Flusser propõe que o período entre Lascaux e os primeiros textos pode ser chamado de pré-história; enquanto o período que cobre os textos e os impressos Vilém Flusser chama de história no sentido exato da palavra; e finalmente o que parte da fotografia rumo ao que se segue pode ser chamado de “pós-história”.
A representação dos objetos: não mais alcançáveis pelas mãos, que deixam de ser manifestos – e passam a ser apenas superfícies que aparecem a vista – passam a ser “fenômenos aparentes”. “Ora, tais aparências possivelmente enganosas devem ser apanhadas simbolicamente por mãos portadoras de tintas. A intenção nisso é dupla: fixar visão fugaz e tornar tal visão acessível a outros. Imagem é visão tornada fixa e intersubjetiva. A confusão “crença” que a manipulação de imagens modifica objetos se converte em alucinação, em idolatria. E corresponde a consciência pré-histórica da magia.
Com os textos alfabéticos lineares constituem o gesto com que a o ocidente escreve, os elementos pictóricos (pictorema, idéia), ou, seja, “a superfície da imagem é transposta sobre linha, a fim que seu conteúdo seja contado um por um, seja calculado, “ex-plicado”. Os elementos pictóricos são transcodificados de “idéias” em conceitos.”
“No início, os elementos arrancados da imagem são serão modificados (escreve-se pictogramas), mais tarde serão conceitualizados (escreve-se ideogramas) e finalmente letras. Não se trata de substituir a bidimensionalidade da imaginação pela unidimensionalidade do pensamento conceitual, claro, distinto e progressivo. Os conceitos alinhados segundo regras “ortográficas” vão estabelecendo relações de cadeia (as da lógica, da causalidade).”
Surge uma zona conceitual entre o homem e sua imaginação através da qual o homem vai poder controlar sua imaginação para poder manipular racionalmente os objetos, com esse feedback a zona conceitual vai se desintensificando e as cadeias que ordenam o conceito vão ao extremos e se convertem em “textolatria”. De acordo com Flusser, não é verdade que a consciência imaginística tenha sido vencida ou reprimida, também não é verdade que a história ocidental seja ela própria processo linear que desenvolve imagens em textos, que transcodifica idéias em conceitos.
“Embora, os primeiros letrados (por exemplo, os profetas judeus e os pré-socráticos)[1] tenham violentamente engajado contra imagens, considerando-as alienantes (pecados, erros) as imagens resistiam a tais ataques. [Embora muitos assinalem a caracterização da imagem como eikon em oposição a logos, e uma civilização da imagem em contraposição a uma civilização da palavra]. A história do ocidente passou a ser dialética entre texto e imagem. O cristianismo, esta síntese do ocidente, pode ser visto como síntese entre texto e imagem[2].
Voltando a Flusser: com a invenção da imprensa a consciência histórica passou a dominar a sociedade toda. Isso porque impressos acessíveis e a introdução da escola obrigatória levam à uma inflação de textos. (...). “A conseqüência foi o domínio da ideologia de textos que obrigam a circunstância a adaptar-se ao escrito (...)”. Segundo esta hipótese de Vilém Flusser. “tal vitória do texto sobre a imagem é o fim da história ocidental sensu stricto. Os textos desimpedidos de imagens, vão projetando doravante sua própria estrutura sobre o mundo lá fora e cá dentro (calculi, campos, bit, elemento de desisão, actonia) conceitos inimagináveis (...).
Já o gesto fotográfico, trata de dar um passo para trás dos textos e arrancar conceitos dos quais são compostos, de torná-los imagináveis segundo Vilém Flusser:
“A fotografia não é imagem de objetos, mas de elementos teoricamente concebidos (moléculas, fótons) e tais elementos concebidos vão ser imaginados (inseridos em imagem) a fim de representarem objetos. Por isso, toda fotografia vista de perto (“close reading”) deixa de ser imagem de objetos e passa a ser mosaico composto de partículas e intervalos.”
Durante a produção de imagens tradicionais o homem recua da circunstância a fim de abarcá-la com sua vista. Durante a produção das imagens técnicas o homem recua dos seus conceitos para imaginá-los. Vilém Flusser diz: “trata-se de computar o universo calculado (contado, concebido). De integrar os intervalos (os diferenciais) entre os elementos, a fim de pode imaginar (dar sentido) ao abismo absurdo. A consciência histórica linear, calculadora deve ceder lugar a consciência bidimensional, imaginativa, computadora. “Destarte, vai surgir zona imaginária nova entre o homem e seus conceitos (“o universo das imagens técnicas”), través do qual o homem vai poder imaginar seus conceitos”. Dado o feedback entre o gesto e a consciência, o universo das imagens técnicas (fotos, filmes, vídeos, imagens sintetizadas por computador) vai se desintensificando e nova capacidade de imaginar vai surgindo. O que é uma condição pós-histórica segundo Vilém Flusser. (...) “Ora, tal imaginação nova exige atitude nova perante o mundo” – ainda não conseguimos concebê-la apenas intuí-la diz Flusser.
“A consciência linear, histórica, textual projeta as regras da escrita sobre o mundo, e este vai adquiri caráter textual (...). Trata-se, pois, para a consciência histórica, decifrar o texto que é o mundo. é ele composto de signos (significantes), e tais signos devem ser interpretados. A consciência deve inclinar-se sobre o mundo significante e adequar-se a ele (...). Este gesto de inclinação é o da ciência da natureza. Ora a consciência emergente abandona decepcionada tal referência perante o mundo, porque “descobriu” que não há nada no mundo que possa ser decifrado. (...). Que o aparente caráter textual do mundo foi para lá projetado pela consciência humana (e sobretudo pela ciência da natureza). Que as ciências nada decifram da natureza a não ser a estrutura do seu próprio pensamento[3]. (...) é o homem quem projeta significado sobre mundo absurdo, e que tal projeção (...) é a dignidade humana.”
Trata-se, diz Flusser, “da reversão dos vetores de significado. Os textos históricos (tanto quanto as imagens pré-históricas) são espelhos que captam os signos provindos do mundo para interpretá-los. O mundo é seu significado. As imagens técnicas são projetores que lançam signos no mundo, a fim de dar-lhes sentido. (...). Tais novas imagens significam conceitos cujo propósito é conferir significado ao mundo. Nova antropologia começa a cristalizar-se: o homem enquanto doador de sentido a si próprio e ao mundo.”
O propósito do pensamento conceitual (da consciência histórica) era criticar imagens, transcodificar idéias em conceitos. Seu propósito era des-magicizar, desmitificar, explicar, tornar claro e distinto. No quadro da nova consciência o propósito é servir a nova imaginação na sua tarefa de dar significado ao mundo.
“Tal nova antropologia terá sem dúvida conseqüências profundas, em sua maioria, imprevisíveis. Apenas um único exemplo: a ciência (...) deixará de ser disciplina que explica e passará a ser disciplina que confere significado. O que a transforma em disciplina artística, já que a arte (o pensamento imaginativo) sempre procura conferir significado. Ora, ciência enquanto uma entre as artes obrigará repensarmos os conceitos de “verdade” e “conhecimento”.”
Vilém Flusser diz que propõe neste ensaio que história é o processo graças ao qual imagens se desenvolvem em textos, portanto idéias transcodificadas em conceitos. Por sua vez, com a inversão da dialética “texto-imagem”, o engajamento histórico se torna inoperante, e isso Flusser chama da pós-história.´
Flusser diz que toda a história ocidental, nessa luta entre o conceito contra a idéia, se revela uma “comedia dos erros”. Em suma, o que Flusser denomina tragédia: “as imagens novas são a nossa derrota”.
Referências
FLUSSER, Vilém. Texto / Imagem Enquanto Dinâmica do Ocidente. In Cadernos Rioarte, Rio de Janeiro, ano II, n.5, jan., 1996
ULPIANO. Claudio. A Estética Deleuziana. Oficina Três Rios (SP). (transcrição das fitas: Mara Selaibe), 1993
http://danielekizian.blogspot.com/2010/06/flusser-texto-e-imagem-para-ricardo.html
[1] Para Platão, a eikones é o mundo das imagens: reflexos, sombras, imagens do mundo das idéias. São cópias que se submetem ao modelo dado pelo mundo inteligível (em é possível a verdade, o bem e o belo). Mas, algum saber pode se constituir sobre as cópias porque o saber se dá sobre os objetos do mundo inteligível (das essências) – segundo Claudio Ulpiano.
[2] Entretanto, “Ao contrário da arte ocidental, fundada na poli-idealização, a arte árabe revela-se essencialista, expressando-se por uma forma decorativa não-figurativa, alicerçada fortemente na caligrafia do pensamento alcorânico” (...). "Na mesquita não há altares, não há imagens, mas há letras árabes em toda parte. Esses sinais, curiosamente revoltos e cursivos aparecem pintados e esculpidos nas paredes, tecidos nos tapetes e nos medalhões que pendem do teto. A letra árabe é a razão de ser da mesquita. (...)". Aida R. Hanania
[3] "... qualquer teoria em Física [científica] é sempre provisória, no sentido de que é apenas uma hipótese, você nunca pode prová-la em definitivo. Não importa quantas vezes os resultados das experiências estejam de acordo com algumas teorias, não se pode ter a certeza de que na próxima vez o resultado não irá contradizê-las. Por outro lado, você pode refutar uma teoria por encontrar uma única observação que não concorde com as suas previsões" - Stephen Hawking - Conforme publicado em Uma breve história do tempo
"A ciência só pode determinar o que é, não o que deve ser, e fora de seu domínio permanece a necessidade de juízos de valor de todos os tipos" (Albert Einstein). Conforme relatado por Singh, Simon - Big Bang (pág. 459)
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